Remuneração médica digna é uma realidade?

Por Marina Basile.

Desde que comecei a trabalhar no Direito à Saúde, há 20 anos, vejo sempre uma equação desequilibrada entre operadoras e prestadores, em especial profissionais de saúde. O lema sempre foi enxugar custos e, com isso, as operadoras, por óbvio, aumentam o lucro. Mas a pergunta é: a que custo os profissionais trabalham?

Historicamente, na saúde, o que se percebe é uma imensa desvalorização da remuneração do profissional de saúde. Curiosamente, à medida que o tempo vai passando, propostas cada vez menores vêm sendo feitas pelas fontes pagadoras. É como se o tempo passasse, a inflação subisse, mas os profissionais precisassem trabalhar cada vez mais para receber aquilo que recebiam anos atrás.

Com certeza, a conta não fecha. E por isso importantes movimentos de grupo têm se estabelecido em todo o país para que seja revista a posição das fontes pagadoras frente à remuneração médica.

Modelos de remuneração médica

Muitos foram os modelos de remuneração sugeridos ao longo dos tempos. Alguns grandes players do mercado, propõem, muitas vezes, o compartilhamento dos riscos dos procedimentos médicos, adotando um modelo de remuneração chamado de orçamento ajustável. Neste formato, a operadora paga um valor fixo pelo procedimento e se ele for bem-sucedido paga-se um adicional após alguns meses. Caso o procedimento apresente alguma intercorrência não previsível por protocolos médicos, o prestador recebe apenas o preço pré-acordado, cujo valor é calculado com base na média de preços praticada no ano anterior (!).

Nesse formato, não se tem dúvida de que se entrega ao prestador o risco do negócio da operadora. Esquece-se, salvo melhor juízo, que o profissional tem sua responsabilidade como sendo de meio e, portanto, deve receber pelo serviço prestado independentemente do sucesso ou não. Sem dúvida, esse é um formato que não atende aos anseios dos profissionais.

Existem também propostas chamadas de captation, na qual o prestador recebe um valor fixo pelo número de vidas que a operadora detém, com uma previsão de demanda fixa mensal.

Esse formato trabalha com uma previsibilidade sob demanda. No entanto, a pegadinha está mesmo na eventual previsão de “desconto” caso a demanda não seja suprida. Sempre paro para me perguntar porque então faz-se a conta com base no número de vidas e o que importa mesmo é o número de atendimentos…

Tem-se ainda o formato de pacote, quando existe um valor fechado para cada procedimento. Esse é um formato possível e ajustável. No entanto, é preciso fazer uma previsão minuciosa de todos os pacotes que podem ser negociados e a questão que paira no ar é justamente sobre aqueles que não foram.

Por fim, existe o fee for service, modelo de conta aberta, onde é feito o que se precisa e encaminhada a conta para a operadora. Esse sempre foi o modelo mais usado ao longo dos tempos. E talvez o mais justo. Paga-se pelo serviço prestado como, de fato, se espera que sejam as relações.

Cada um desses formatos tem nuances distintas e, a depender do caso, podem ser contratualizados com os prestadores. No entanto, o mais importante passo é saber se cada um deles atende a uma remuneração digna.

Mobilização de grupo

 Antes mesmo de pensar no formato de remuneração, é preciso pensar no grupo no qual o profissional de saúde está inserido. Isso define muitas coisas, inclusive o poder de negociação.

Sempre defendi e continuo na defesa de profissionais que saibam o valor do seu labor. Portanto, minha primeira indagação quando me deparo com um grupo de profissionais de saúde sempre é: quanto vale o seu trabalho? Veja que não estamos falando de uma proposta de preço, mas, acima de tudo, de valor. Quanto valor está inserido no seu trabalho para que ele possa ter a remuneração que você, profissional, entende digna?

Não é factível aceitar que profissionais especialistas não recebam o justo e digno pelo seu trabalho. Portanto, mobilizar-se para que, unidos, possam buscar os anseios comuns sempre é uma alternativa interessante, viável e equilibrada.

Existem muitas cooperativas de especialidades no país e todas elas têm um ponto de interseção: sabem conversar em grupo. Isso traz a força e energia necessária para negociar uma remuneração digna e factível no cenário da saúde.

A resposta é sim!

Portanto, a resposta é sim! É possível uma remuneração digna na saúde, com todos os formatos de remuneração existentes e aqueles que hão de vir, criados eminentemente pelas fontes pagadoras. O principal aspecto, no entanto, não é estabelecido de fora para dentro, mas sim de dentro para fora. Esse movimento “intra-muros” traz consigo um peso muito forte para a geração de valor e determina os passos de sucesso. É ela a mobilização de grupo.